9 de jan de 2018

Renovação

Aqueles quatro dias parecem agora que foram apenas um sonho...
Enquanto eu o vivia, percebia-me aflita pelo sofrimento antecipado de imaginar os outros dias que não seriam mais como aqueles. Acho que o desejo e a paixão têm mesmo destas de, quando são experimentados por nós, humanos, nos encontramos numa situação de que quando não os temos, ficamos sedentos por ter o bem-estar causado por estas coisas, porém, quando as temos, ficamos desesperados com o medo de perdê-las. Fico pensando no vazio que sinto agora. A distância abrupta desperta certos sentimentos estranhos de compreender. O vazio que fica, a energia que não é depositada no outro, o amor que fica retido.
Respiro fundo e bem no âmago de meu ser, tento conviver com este vazio. Devo admitir, não é fácil. Muitas vezes me pego pensando em coisas com as quais eu gastaria minha energia, coisas que às vezes parecem me preencher, ou nutrir, ou então que apenas dão a impressão de estarem me deixando mais completa.
Tento evitar as tais reações extremistas, embora no meu automático seja bem fácil, para não dizer conveniente, inevitavelmente cair nelas.
Aqui, com minha própria energia só para mim, vejo-me tendo que pensar em formas de gastá-la.
O vazio que se instala me assusta. Pergunto-me como é o seu vazio. Pergunto-me o que compreender do seu silêncio.
É aí que percebo a ilusão em que venho estado mergulhada.
A ilusão de que este vazio que me aflige está sendo causado por sua ausência.
Como se, de alguma forma, você tivesse sido capaz de estar preenchendo uma parte daquele vazio, de forma a torná-lo mais suportável.
É neste momento que eu me lembro do passado...
Aquele que foi embora e levou consigo um pedaço de mim.
Aquele que me proporcionou viver o sentimento de perda.
E me deixou com o aprendizado de tentar conviver com o vazio.
De forma a entregar-me a ele, abraçá-lo, considerá-lo como parte de mim.
Mas eu já vivi isso antes. Já estive tão cega que deixei-me ser levada pela ilusão.
Não me permitirei viver isso novamente.
Desta vez eu sei que estou diferente.
Agora, com sua ausência, distancio-lhe de mim. Fecho o elo.
Estou determinada a sentir a dor do afastamento.
Estou determinada a me respeitar e aceito apenas coisas que me fazem bem.

29 de jan de 2017

Medida da significação

Procurei-me nesta água da minha memória
Que povoa todas as distâncias da vida
E onde, como nos campos, se podia semear, talvez,
Tanta imagem capaz de ficar florindo...

Procurei minha forma entre os aspectos das ondas,
Para sentir, na noite, o aroma da minha duração.

Compreendo que, da fronte aos pés, sou de ausência absoluta:
Desapareci como aquele — no entanto, árduo — ritmo
Que, sobre fingidos caminhos,
sustentou a minha passagem desejosa.

Acabei-me como a luz fugitiva
que queimou sua própria atitude
segundo a tendência do meu pensamento transformável.

Desde agora, saberei que sou sem rastros.
Esta água da minha memória reüne os sulcos feridos:
as sombras efêmeras afogam-se na conjunção das ondas.

E aquilo que restaria eternamente
é tão da cor destas águas,
é tão do tamanho do tempo,
é tão edificado de silêncios
que, refletido aqui,
permanece inefável.

Cecília Meireles

3 de nov de 2016

Desenrolo-me de mil emaranhados
E como um pássaro que se permite voar novamente
Ponho-me a voar.

Em volta dos restos, me reconstruo
Ergo novamente, cada muro.
Permito-me viver.


30 de jun de 2016

E foi

Tudo o que passou. Dois anos. Parece um sonho.
Será que foi apenas um sonho?
Agora tudo parece um pesadelo.
Lágrimas de tristeza e raiva escorrem de meus olhos.
Sinto aos poucos meu coração rasgando,
É difícil ainda acreditar que tudo mudou tão repentinamente.
Está ficando cada vez mais profunda, a ferida.
Não dá pra voltar atrás.
Eu mal consigo acreditar nisso tudo.
Eu só não consigo.

9 de mai de 2016

Vazio

Os tijolos do muro que construímos
Estão despencando com os terremotos

Não tem mais jeito.

Aos poucos me acostumo com sua ausência
Descolo você do meu eu.

O espaço aqui fica vazio.
Está tudo bem.
Já estive aqui antes.
Já estive bem menos forte do que sou hoje.