29 de jan de 2017

Medida da significação

Procurei-me nesta água da minha memória
Que povoa todas as distâncias da vida
E onde, como nos campos, se podia semear, talvez,
Tanta imagem capaz de ficar florindo...

Procurei minha forma entre os aspectos das ondas,
Para sentir, na noite, o aroma da minha duração.

Compreendo que, da fronte aos pés, sou de ausência absoluta:
Desapareci como aquele — no entanto, árduo — ritmo
Que, sobre fingidos caminhos,
sustentou a minha passagem desejosa.

Acabei-me como a luz fugitiva
que queimou sua própria atitude
segundo a tendência do meu pensamento transformável.

Desde agora, saberei que sou sem rastros.
Esta água da minha memória reüne os sulcos feridos:
as sombras efêmeras afogam-se na conjunção das ondas.

E aquilo que restaria eternamente
é tão da cor destas águas,
é tão do tamanho do tempo,
é tão edificado de silêncios
que, refletido aqui,
permanece inefável.

Cecília Meireles

3 de nov de 2016

Desenrolo-me de mil emaranhados
E como um pássaro que se permite voar novamente
Ponho-me a voar.

Em volta dos restos, me reconstruo
Ergo novamente, cada muro.
Permito-me viver.


30 de jun de 2016

E foi

Tudo o que passou. Dois anos. Parece um sonho.
Será que foi apenas um sonho?
Agora tudo parece um pesadelo.
Lágrimas de tristeza e raiva escorrem de meus olhos.
Sinto aos poucos meu coração rasgando,
É difícil ainda acreditar que tudo mudou tão repentinamente.
Está ficando cada vez mais profunda, a ferida.
Não dá pra voltar atrás.
Eu mal consigo acreditar nisso tudo.
Eu só não consigo.

9 de mai de 2016

Vazio

Os tijolos do muro que construímos
Estão despencando com os terremotos

Não tem mais jeito.

Aos poucos me acostumo com sua ausência
Descolo você do meu eu.

O espaço aqui fica vazio.
Está tudo bem.
Já estive aqui antes.
Já estive bem menos forte do que sou hoje.

Angústia

Não sei o que sinto,
Mas eu deveria saber
Ou deveria sentir?

Não sei o que sinto,
Mas estas mãos apertadas
Em volta da minha garganta
Vão me fazer sufocar!

Não sei o que sinto,
Mas estou presa num labirinto
Com minhas mãos atadas
Eu mal consigo respirar...!

Não sei o que sinto,
Mas parece que estou caindo...